‘Sou mãe e pai dela’, diz mãe sobre criança que sobrevive através de aparelhos na PB

Menina com doença ainda sem diagnóstico mora em Campina Grande com a mãe, nos fundos da casa da avó.

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Ana Klara tem 7 anos, e onze meses atrás agia como qualquer outra criança da idade dela: brincava, estudava, aprontava e era feliz da maneira que podia. Mas uma doença ainda não diagnosticada interrompeu drasticamente essa rotina, deixando-a acamada e dependente da ajuda de aparelhos para continuar vivendo.

Ela conta com a dedicação integral da mãe, a dona de casa Juliana Oliveira, de 23 anos, e com a mínima qualidade de vida que ela pode lhe proporcionar, pois mãe e filha dispõem apenas de uma renda de R$ 124 que Juliana recebe do Programa Bolsa Família e da solidariedade de pessoas que se sensibilizam com a situação e as ajudam a sobreviverem.

Alias, sobreviver é o verbo que predomina para Juliana e Ana Klara, a quem a mãe chama carinhosamente de Klarinha. Elas moram nos fundos da casa da mãe de Juliana, no bairro Jardim América, em Campina Grande, e vivenciam uma rotina exaustiva de cuidados que impossibilita a mãe de trabalhar para dar uma condição melhor à filha.

O avô da menina trabalha como auxiliar de serviços gerais e o pouco que ganha também não dá para ajudar a neta porque um dos seus filhos faleceu recentemente, deixando mulher e filho para ela cuidar. O pai de Ana Klara nem a visita e também não ajuda financeiramente, segundo Juliana.“Eu sou mãe e pai dela. Não tenho como trabalhar. Eu tenho que ficar cuidando dela porque ela depende de mim para tudo”, comentou a mãe.

Klarinha seguia uma vida sem muitas limitações onze meses atrás (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal)
Klarinha seguia uma vida sem muitas limitações onze meses atrás (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal)

Juliana conta ainda que Klarinha nasceu prematura e precisou ser internada na Unidade de Terapia Intensiva Infantil. Depois disso ela deu algumas entradas no hospital e começou a apresentar crises convulsivas devido à epilepsia, mas seguia uma vida de criança normal, com poucas limitações. Por volta do mês de maio do ano passado ela passou mal e foi levada para o hospital, onde teve uma parada respiratória e precisou ser submetida a uma traqueostomia.

Hoje ela não respira mais sozinha e faz uso de sonda para alimentar-se. Ela vem perdendo bastante peso e está com grau elevado de desnutrição. Seu quadro clínico indica encefalopatia crônica progressiva e epilepsia de difícil controle.

Atualmente, Ana Klara vive uma rotina iintensa de internações (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal )
Atualmente, Ana Klara vive uma rotina iintensa de internações (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal )

Sintomas apareceram em outros membros da família

“Há três anos perdi uma filha de 2 anos que apresentou esses sintomas. Eu também tenho convulsões e meu irmão tinha também, mas a gente nunca soube o porquê”, lamentou Juliana. Agora, ainda comovida pela morte a filha mais nova, a mulher busca forças para conseguir oferecer uma melhor condição para a menina mais velha e já chegou até a fazer faxina em troca de comida para a criança.

Cada lata de leite que lhe foi prescrita custa em média R$ 50, sem falar na relação de itens de consumo diário para manutenção da vida de Ana Klara, como fraldas e itens de higiene e o principal: as seis medicações que ela toma. “Algumas tem no posto de saúde, outras tenho que comprar mesmo com o dinheiro que as pessoas me ajudam”. Somando os gastos das necessidades semanais, o dinheiro que Juliana recebe por mês só daria para comprar em média duas latas de leite, o que não é suficiente para uma semana completa.

Como se não bastasse essa dificuldade financeira, a rotina de Juliana e Ana Klara ainda se torna mais complicada devido às constantes idas ao hospital. Há uma semana, Klarinha foi internada cinco vezes em um período de sete dias no Hospital de Emergência e Trauma de Campina Grande para substituição da sonda. Agora está com começo de pneumonia, o que demanda ainda mais cuidados.

Solidariedade dá novo sentido às vidas de mãe e filha

É em meio a essa situação que a solidariedade está começando a dar um novo sentido às vidas de Juliana e de Klarinha. Duas mulheres, uma do Ceará e outra da Bahia, que pretendem não revelar as identidades, ficaram sabendo da história de vida delas há um mês através da internet e decidiram ajudar. O objetivo delas é tocar o coração das pessoas e das autoridades para que elas se sensibilizem e ajudem a menina e a mãe. Uma campanha está sendo desenvolvida nas redes sociais e vem ganhando visibilidade.

Rede social ajuda a mobilizar ações de solidariedade (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal)
Rede social ajuda a mobilizar ações de solidariedade (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal)

As mulheres se preocuparam em checar os laudos da criança e identificar as reais necessidades dela. Elas também se responsabilizaram pelo controle financeiro da campanha, para garantir a seriedade e reforçar o compromisso em ajudar Ana Klara.

Foi criada uma conta no mome da menina para doações e as mulheres responsáveis pela campanha fazem o acompanhamento para verificar os gastos. A cada movimentação, Juliana repassa as informações das necessidades para custear e envia os recibos dos itens comprados. Embora a campanha faça a arrecadação de dinheiro, o objetivo principal é fazer com que as pessoas doem os itens que Klarinha precisa.

As mulheres também procuram oferecer um suporte emocional para Juliana e orientá-la, na medida do possível. Juliana contou que, em novembro do ano passado, deu entrada na documentação para receber o Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica da Assistência Social (BPC/Loas), no valor de um salário-mínimo (R$ 954), mas ainda não obteve retorno.

Apesar de a campanha ter proporcionado uma melhora de vida para Klarinha, a situação dela ainda é crítica e exige mais atenção, conforme as pessoas que organizaram esta cadeia de solidariedade. Além do amor e da dedicação que a menina recebe da mãe, ela precisa também da mobilização de outras pessoas que possam ajudá-la ter novas perspectivas. Formas de ajudar podem ser conferidas na página Ajude Klarinha, no Facebook.

Campanha pede doações de itens necessários para sobrevivência de Ana Klara (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal)
Campanha pede doações de itens necessários para sobrevivência de Ana Klara (Foto: Juliana Oliveira/Arquivo Pessoal)

G1PB