200 dias sem aulas

SÃO PAULO 12/08/2020 CORONAVIRUS COVID 19 METROPOLE EDUCAÇÃO COLEGIO PORTO SEGURO as consultorias prestadas por hospitais e laboratórios para as escolas organizarem a volta às aulas presenciais alguns espaços que foram adaptados no Colégio Visconde de Porto Seguro. Eles alteraram bebedouros/purificadores, salas de aula e instalaram câmeras térmicas. FOTO ALEX SILVA/ESTADAO

O Brasil acaba de chegar a um número espetacular: crianças e jovens estão há 200 dias seguidos sem aulas, fenômeno que não encontra paralelo em nenhum país do mundo. É a maior realização, até agora, da quarentena defendida com tanto entusiasmo por nossos “gestores” públicos, médicos que só pensam naquilo – “fique em casa” –, sindicatos de professores e todos os militantes, como eles, do Partido Funerário Brasileiro. É mais um título mundial, para se juntar ao “penta”: nenhuma nação do planeta conseguiu chegar nem perto deste recorde. Na Dinamarca, as escolas públicas ficaram fechadas 30 dias. Na França, 56. Na Alemanha, 68. Mais uma vez a Europa se curva ante o Brasil.

Deve ser, obviamente, porque o sistema de ensino europeu é muito inferior ao brasileiro. Aqui, com a prodigiosa qualidade da nossa escola pública, podemos ficar praticamente um ano sem aulas – e garantir assim a perfeita saúde das crianças, enquanto a Europa, irresponsável, ignorante e coitada, está criando “aglomeração” nas escolas e fazendo esse genocídio infantil porque precisa tirar o seu atraso em matéria de educação. Só pode ser isso. No Brasil quem entende mesmo do assunto é gente como a deputada Bebel, que manda no sindicato de professores de São Paulo, ou dr. Drauzio, especialista vitalício da mídia para questões de medicina pública, privada e de qualquer outra natureza – e mais uma penca de celebridades tão parecidas com esses dois que nem é preciso ficar citando mais nomes. Eles não podem nem ouvir falar em volta às aulas; os 200 dias de escola fechada são a maior vitória que já conseguiram até agora ao longo de toda a quarentena.

A sindicalista diz que não há nenhuma condição de reabrir as escolas no momento, embora o número de crianças que contraíram o vírus pelo mundo afora seja, em geral, inferior a 1% dos infectados; as mortes são menos de 1% desse 1%. Ela acaba, aliás, de fazer uma ameaça: se as autoridades ensaiarem qualquer tentativa de volta às aulas os professores entrarão “em greve”. O especialista diz que todo mundo tem de continuar trancado em casa – salvo, por alguma razão não explicada, os mesários das próximas eleições municipais, segundo sua mensagem ao público na propaganda da justiça eleitoral. Todos falam, naturalmente, que a solução é substituir as aulas “presenciais” (como se fosse possível dar algum outro tipo de aula) por lições “no computador” – que servem, talvez, para quem quer fazer um curso de corte e costura, mas não ensinam coisa nenhuma de aritmética, ciências ou português.

Em países que contam com um mínimo de decência por parte dos seus “gestores”, levar as crianças de volta às aulas foi uma prioridade absoluta desde o começo da epidemia. Aqui, manter as escolas fechadas por 200 dias, e quantos mais for possível, é um ato de patriotismo.

Por J.R. Guzzo, O Estado de S. Paulo