Acervo de 750 mil áudios entregue por delator indica pagamentos a operadores de PT, PSDB e MDB

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Um acervo de 750 mil gravações telefônicas da corretora de valores Hoya, responsável por entregas de propina para a Odebrecht e para a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Rio de Janeiro (Fetranspor), pode ajudar a comprovar pagamentos em dinheiro vivo para operadores do PT, PSDB, MDB e diversos outros partidos implicados na Lava-Jato.

O material, obtido pelo GLOBO, revela detalhes da complexa sistemática de pagamentos indevidos a políticos: de segunda a sexta, a Odebrecht transmitia à corretora Hoya uma relação com endereços para entrega de dinheiro, nome do recebedor e a senha correspondente. Funcionários de transportadoras de valores eram acionados pela Hoya para proceder com os pagamentos, sempre informando a ocorrência de problemas ou situações atípicas.

Os áudios foram entregues à Polícia Federal pelo doleiro Álvaro José Novis em seu acordo de delação premiada e está sendo analisado pelos peritos para servir de prova a dezenas de investigações em andamento na Lava-Jato. Até o momento, poucas gravações tinham vindo a público.

Os telefonemas dos terminais da corretora Hoya eram gravados automaticamente pelo sistema da empresa, por causa de uma regra da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). São 754.291 gravações de conversas telefônicas entre 2010 e 2018, que captaram tanto as atividades lícitas como as ilícitas. Neste último caso, as provas mais volumosas e mais fortes são do ano eleitoral de 2014, quando a Odebrecht e a Fetranspor turbinaram as entregas de dinheiros para políticos.

Em depoimento à PF, o doleiro Álvaro José Novis explicou a sistemática dos diálogos: “As conversas gravadas com pessoas de interesse da investigação normalmente são curtas e o conteúdo era o agendamento de pagamentos e reuniões; (…) que normalmente as conversas não eram claras e falavam apenas de marcação de local de entrega, às vezes falavam em códigos, como ‘vamos marcar um café’; que como as entregas já faziam parte da rotina, nem eram necessárias muitas informações, já que os interlocutores já sabiam que o assunto era a entrega de valores”.

Operador do PT, William Ali Chaim é um dos que mais aparecem nos registros telefônicos. Foram cerca de 80 ligações para seu telefone celular entre agosto de 2014 e maio de 2015. Cabia a Chaim receber os pagamentos de caixa dois da Odebrecht destinados aos serviços do marqueteiro João Santana para a campanha de Dilma Rousseff em 2014.

Também há registros para um ex-funcionário do governo de São Paulo na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB-SP), Eduardo Castro; telefonemas para Altair Alves Pinto, apontado como recebedor de propina de Eduardo Cunha (MDB-RJ); ligações para um assessor do deputado Paulinho da Força (SD-SP); e contatos com um recebedor do caixa dois da campanha de Paulo Skaf (MDB-SP), dentre outras ligações.

Os organizadores do pagamento

Funcionário da Hoya Corretora responsável por organizar os pagamentos aos políticos indicados pelas empresas, Márcio José Freira do Amaral é o principal protagonista das ligações telefônicas sobre entregas de dinheiro. Quase diariamente, Márcio se comunicava com Maria Lúcia Tavares, secretária da Odebrecht que transmitia a relação dos pagamentos aos políticos, com endereço, nome e senha. Geralmente falavam-se por um sistema de mensagens instantâneas, mas em casos mais urgentes um telefonava para o outro.

Quando as entregas de dinheiro eram em São Paulo, Márcio transmitia as ordens para Edgard Augusto Venâncio, gerente de operações da Transnacional, empresa transportadora de valores. No Rio, era outra transportadora, a Trans-Expert, que fazia as entregas. Uma funcionária da tesouraria da Hoya Corretora mantinha contato frequente com os entregadores e avisava a Márcio caso houvesse dificuldades ou problemas na entrega. Se isso acontecia, Márcio tentava descobrir se o endereço estava correto e telefonava para os contatos do recebedor – constituindo, neste caso, as provas mais úteis para a Lava-Jato.

Um dos problemas comuns era a pessoa não estar no local combinado. Em 24 de setembro de 2014, Márcio telefona para a mesa de Maria Lúcia Tavares, em Salvador.

Márcio: — Na rua Pamplona, é que eu tô abrindo isso aqui ainda, a pessoa tá hospedada mas não tá no local. É o ‘Vermelho’ (senha).

Maria Lúcia: -— O Vermelho é?

Márcio: — É. Vê se consegue um contato.

Maria Lúcia: — Vou falar aqui com o Alexandrino (Alencar, executivo da Odebrecht) pra falar com o cara. Pra ver se tem o telefone também né. Vou ver aqui e te falo.

No caso da Fetranspor, Márcio também se comunicava com frequência com uma secretária da federação, no telefone fixo da empresa. Nessas ligações, ele confirma entregas para nomes indicados pela federação ou fala sobre levar dinheiro ao local. Em uma conversa de 19 de janeiro de 2016, a secretária diz que a Fetranspor estava precisando de dinheiro e eles acertam um dia para a entrega:

— Se tu vai mandar o dinheiro na quinta, eu venho na quinta-feira — diz a secretária.

Outros telefonemas referentes a políticos do Rio de Janeiro já vieram a público nas investigações da Lava-Jato. Um deles, por exemplo, era Jorge Luiz Ribeiro, braço-direito do ex-presidente da Assembleia Legislativa Jorge Picciani. Para o Ministério Público Federal, as conversas comprovavam entregas de dinheiro destinadas a Picciani. Outros diálogos que se tornaram famosos foram entre os entregadores e o coronel João Baptista Lima, apontado pela PF como operador do ex-presidente Michel Temer (MDB), no qual eles acertam a entrega de uma “encomenda” para Lima. Segundo a PF, seria propina destinada a Temer. As defesas deles negam envolvimento em irregularidades e o recebimento de propina.

O GLOBO

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