Educador social tenta publicar livro após superar situação de rua no Ceará

G1CE - Wagner Gonçalves escreveu à mão 'Monólogos de papelão - realidade nua e crua', narrando a própria história e a de outros colegas de praça.

Contar as experiências de quase dois anos enquanto pessoa em situação de rua na Praça do Ferreira, Centro de Fortaleza. Essa é a proposta do educador social Wagner Gonçalves, 35, ao escrever o livro “Monólogos de papelão – realidade nua e crua”.

As histórias – no momento, reunidas apenas nas páginas de um caderno – esperam ser publicadas, conforme a vontade do autor, até o fim do ano. Até lá, o planejamento é finalizar todo o processo de desenvolvimento dos enredos.

“Estou fazendo conexões com um pessoal que já conheço para viabilizar isso”, adianta, mencionando que ainda não há, contudo, contrato firmado com nenhuma casa editorial ou projeto para a veiculação dos relatos. Escritos à mão, eles dão dimensão do que é o estar na rua a partir da perspectiva de sete perfis, incluindo o de Wagner.

“São histórias que se cruzam, onde explico um pouco da linguagem da rua e sobre o sistema. Costumo dizer, inclusive, que o livro não é baseado em uma história real: é uma história real mesmo. Não tem filtro. Mudei o nome de algumas pessoas porque elas pediram, mas tudo que vai estar lá é real. Não poupei nada”, explica.

Contato com a arte

Versos de Sidney Sheldon inspiraram poeta ceartense — Foto: Camila Lima/G1

Versos de Sidney Sheldon inspiraram poeta ceartense — Foto: Camila Lima/G1

Wagner já é conhecido entre a população de rua de Fortaleza que vive na Praça do Ferreira, espaço que tradicionalmente reúne grande quantidade de pessoas na mesma situação em que outrora ele esteve. Muito dessa fama se deve ao poema “Estourou, Brasil!”, criado e declamado pelo educador em saraus e eventos. Os versos convocam à reflexão ao levantar a bandeira do respeito e dignidade aos socialmente invisíveis.

“Você que é ser humano/ Você que se diz ser intelectual/ Faça uma reflexão: Ninguém nasceu para viver nas ruas/ A gente não é lixo, não”, ressoam as estrofes. O poema se deu no processo de superação da situação de rua, iniciado após o contato com arte-educadores, feito André Foca e Biro Araújo, do Centro de Convivência e Pousada Social, equipamento da Prefeitura de Fortaleza com atividades voltadas para a população em questão.

Foi imerso nessa atmosfera que Wagner percebeu as veredas se abrindo por meio do contato com a arte, de modo especial a literatura – nunca deixou de acompanhar as tramas do escritor americano Sidney Sheldon (1917-2007) – e as Artes Cênicas, como quando organizou junto aos “irmãozinhos”, como chama os colegas de rua, encenações de espetáculos.

Antes disso, porém, havia passado por um profundo estado de depressão, intensificado com a morte da avó, Rita Gonçalves. O agravamento o colocou em abril de 2017 sob o relento, de onde saiu há oito meses.

“Nos sete primeiros dias fiquei na beira da praia, com medo de subir pras praças. Nesse tempo, comia do lixo. Não sabia roubar e tinha vergonha de pedir. Então, esperava anoitecer, ia nas lixeiras e caçava os restos de comida que sobravam”, lembra. “Até que conheci um rapaz que também estava em situação de rua. Ele dividiu um pedaço de pão azedo comigo e me levou pra Praça do Ferreira. Foi aí que as coisas mudaram”, rememora.

Plantar esperança

Poeta cearense quer ajudar outras pessoas a superar a situação de rua — Foto: Camila Lima/G1

Poeta cearense quer ajudar outras pessoas a superar a situação de rua — Foto: Camila Lima/G1

Hoje reside em um apartamento no Residencial Cidade Jardim, no bairro José Walter, conseguido a partir do programa Minha Casa Minha Vida. Também está concluindo um curso na Universidade Federal do Ceará, no ramo da Educação Social. Desempregado, busca uma ocupação. No olhar, permanece a esperança de ver a situação precária em que vivem os antigos companheiros e companheiras de rua mudar, sobretudo se for por meio do estreitar laços com a arte.

“Você tem que fazer um processo de colocar na mente da galera que eles podem recomeçar. Se eu não tivesse encontrado pessoas para colocar isso na minha mente, não estava aqui hoje. Por isso que, quando converso com algum irmãozinho de rua, passo essa visão pra ele, de plantar essa semente da mudança”.