Mourão: “Se ele não me quiser, pego as coisas e vou embora”

Já faz um tempo que o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, vem sendo alvo de críticas do filho de Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro. O general parece cada vez mais incomodado com a falta de proteção por parte do próprio presidente – que não contraria os ataques do filho – e, no último domingo (21), acabou desabafando para a imprensa: “Se ele (Bolsonaro) não me quer, é só me dizer. Pego as coisas e vou embora”. As informações são da revista Veja.

Em público, vice e presidente assumem uma postura de que tudo está bem e, inclusive, usam a metáfora de um casamento para classificar a relação. Em café da manhã com a imprensa, na última quinta-feira (25), no Palácio do Planalto, Bolsonaro brincou: “Esse casamento é até 2022, no mínimo. Continuamos dormindo na mesma cama, só tem briga para saber quem vai arrumar a cozinha”. Mourão complementou a brincadeira: “Ou quem vai cortar a grama”.

Porém não é segredo que, nos bastidores, há uma grande crise acontecendo entre os dois. Quem expôs as divergências entre Bolsonaro e Mourão foi o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro. O filho do presidente postou um vídeo na conta do pai, no Youtube, em que Olavo de Carvalho aparece tecendo duras críticas aos militares, classificando-os como “incultos e presunçosos”. O guru do governo bolsonarista claramente se referia a Mourão, a quem já chamou anteriormente de “adolescente desqualificado”.

O vídeo foi retirado do ar, mas Carlos continuou atacando o vice-presidente por meio de sua conta no Twitter. Ele acusou Mourão de querer tirar seu pai do poder, afirmando que o general se opõe às propostas do presidente, faz alianças com adversários, se aproxima de empresários importantes, bajula a imprensa e se apresenta como “sensato” e “transigente”, tudo visando assumir o cargo que é de Bolsonaro.

Mas a questão principal para Mourão é o fato de o próprio Bolsonaro dar aval para que o filho siga acusando-o de conspiração. O presidente já afirmou não concordar com tudo que é dito, mas disse que “algumas críticas são justas”, sem especificar quais seriam elas.

No domingo, Mourão estava quieto, abalado e teve picos de pressão. Rodeado de familiares, ele afirmou que se a situação continuasse, ele não descartaria a possibilidade de renunciar ao cargo. “Se ele (Bolsonaro) não me quer, é só me dizer. Pego as coisas e vou embora”, desabafou. Afirmando ser um soldado a serviço da nação, o general garantiu que tudo que faz é tentar ajudar o presidente. “O presidente nunca me disse para parar, para não falar com essa ou aquela pessoa. Então, entendo que não estou fazendo nada de errado. Mas se ele quiser que eu pare…”, finalizou.

Bolsonaro, por outro lado, já deu diversos sinais de que não acredita fielmente nas boas intenções de seu vice. Na terça-feira (23), durante uma reunião do Conselho de Governo, o presidente foi elogiado por ter vencido uma eleição difícil sozinho, sem ajuda de outros políticos. Bolsonaro respondeu ironicamente: “Não, teve Mourão comigo”.

Semanas antes, o presidente havia censurado algumas atitudes do vice. “O negócio é o seguinte: o Mourão é general lá no Exército. Aqui quem manda sou eu. Eu sou o presidente”, afirmou, visivelmente irritado.

O outro filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, também aproveitou para dar sua opinião sobre o general. “O Mourão não foi eleito para ficar dando declarações contrárias às do presidente ou para agradar a uma parte da opinião pública. A função do vice é substituir o presidente em uma eventual ausência dele. Tem de ser um soldado na porta do quartel. Nada mais”.

No começo de abril, Mourão recebeu o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), em seu gabinete. O general foi acionado pela assessoria do parlamentar, que pediu o encontro. Opositor feroz ao governo, o senador explicou que procurou Mourão, e não Bolsonaro, para debater uma agenda de melhorias de infraestrutura no estado: “Nós conversamos com quem tem sensatez para conversar”. Após a conversa, o vice-presidente passou seu contato pessoal a Randolfe e se colocou à disposição do parlamentar.

Na segunda-feira (22), foi a vez da deputada Perpétua Almeida, do PCdoB, se encontrar com Mourão. O motivo do encontro foi o pedido do apoio do general, para aumentar a proteção nas fronteiras do Acre e para ajudar a destravar a proposta de criação de um escritório do Banco do Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) no Brasil. O general mostrou-se extremamente receptivo, e confidenciou ter uma prima, Arminda Mourão, ex-filiada ao PCdoB, que já tentou convencê-lo a ingressar no partido. Em entrevista à revista VEJA, Perpétua afirmou: “O vice-presidente entende a liturgia do cargo que está ocupando. É um democrata”.

Os próprios aliados do governo, que têm encontrado dificuldades para falar com ministros e com o próprio presidente, estão recorrendo à Mourão. O deputado Márcio Labre (PSL-RJ) foi até o vice para informá-lo de que era seu fã. Durante a conversa, os dois chegaram a comentar algumas declarações do vice-presidente, que explicou ao parlamentar que, ao entrar no Exército, foi instruído a ser sincero e a sempre falar o que pensava. “Com o Bolsonaro é a mesma coisa. Enquanto não recebo uma diretriz, mantenho pública a minha opinião pessoal”, declarou.

Em um governo extremamente intolerante a oposições, a postura de Mourão soa não só como provocação, mas como conspiração. Inclusive, há duas semanas, o deputado Marco Feliciano (PODE-SP), vice-líder do governo, fez algo inusitado na política e pediu o impeachment de Mourão. Curiosamente, ele mesmo admite não querer a cassação do vice. “Foi um tiro de alerta. Eu não mirei o coração do Mourão. Eu mirei os ouvidos — os dele e os de todos os que estão com ele. Agora, aqueles que frequentam o gabinete podem ser vistos como conspiradores”, afirmou Feliciano.

Antes de apresentar o pedido, o parlamentar consultou Bolsonaro sobre sua intenção. O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional e amigo de Mourão, acompanhava a audiência, que tratava da reforma da Previdência. Antes de entrar no assunto central, Feliciano pediu para ficar a sós com o presidente.

“Nos 100 dias de governo foram 100 dias de vice alfinetando o presidente”, disse Feliciano. Bolsonaro não fez nenhum comentário, o que ficou subentendido como consentimento. O pedido de impeachment, porém, já foi devidamente arquivado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Na quinta-feira, durante o café da manhã para a imprensa, Bolsonaro e Mourão sentaram-se lado a lado, mantendo as aparências. Ambos comentaram que Carlos tem o direito de expressar sua opinião e o general chegou a dizer que o fato de Carlos ser filho do presidente não o obriga a “ficar de bico calado”.

Na história da política brasileira, não é raro haver conflitos entre titular e vice. O primeiro presidente da República, marechal Deodoro da Fonseca, desconfiava, com razão, de Floriano Peixoto – que assumiria seu lugar nove meses depois da posse. Café Filho conspirava contra Getúlio Vargas. João Goulart, contra Jânio Quadros. Na redemocratização, Itamar Franco voltou-se contra Fernando Collor. E, no caso mais recente, Dilma Rousseff acreditava que Michel Temer era o vice mais discreto e servil com quem um presidente poderia contar.

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